terça-feira, 20 de outubro de 2009

Jantar

No fim do dia, Maria, moça diplomada, alinhada, com cabelo preso caindo em rabo de cavalo, arrumada, de salto e unhas feitas; encontra João, seu ‘namorido’, em um restaurante. Eles sentam e começa o diálogo:

–João, o que vamos fazer amanhã?

– Amanhã?...

É final do dia, sexta-feira, João acordou pensando na cervejinha que ele ia tomar depois do cansativo dia de trabalho. A pergunta de Maria o pega de surpresa e ele sabe: fodeu. Qualquer deslize significa dormir no sofá, está pisando em ovos. Fica reticente enquanto busca desesperadamente em sua memória o que tem amanhã.

–Não me diga que você esqueceu...

Maria, que não é burra e namora com João há tempo, sabe que ele não lembra do combinado. Enquanto isso, olha o espelho de um estojo de pó de uma mulher que está atrás de João e nele repara que uma ruiva entra no bar. Maria olha as sobrancelhas negras, o decote descomunal, a cintura fina e os sapatos pretos de salto agulha Arezzo que ela está usando e, prontamente, a classifica como: Vaca ladra de namoridos! Finge que não aconteceu nada e fala um “você não lembra da conversa de ontem” básico.

–Ontem?...

Já era, João não lembra nada de hoje, quem dirá de ontem! A única coisa que ele sabe é que hoje é dia de cervejinha... tem algo a mais, se não não estariam em um restaurante. João junta alucinadamente os fragmentos dos últimos dias: trabalho, casa, carro, datas especiais, aniversários... Precisa de mais tempo, há muitas possibilidades. Precisa fechar o universo de coisas pra conseguir lembrar. Solta em tom de brincadeira “mesmo? Ontem, não brinca. Dá uma dica se é verdade então.”

– Não acredito que você não lembra... – diz Maria já cruzando os braços e com visíveis traços de irritação em suas feições. Mas seus verdadeiros pensamentos são dirigidos à ruiva, a ladra de namoridos. ‘Como ela pode usar um vestido decotado desse jeito, e sem sutiã? M-E-U D-E-U-S ela ta sem calcinha também. Não existe fio dental tão pequeno, e ainda abaixa! É uma piranha! Se o João olhar ele vai ver só. Vou queimar seus pelos um a um com fósforos e cortar o saco dele com um alicate de cutícula enferrujado e sem fio!...’ – Você não lembra do que falamos ontem, antes da gente dormir?

– Calma aí, eu lembro sim é claro...

João tenta em vão evitar o trágico desfecho desta história. ‘O que ela disse ontem antes de dormir: hoje não, estou com dor de cabeça? Não, ontem ela não estava com dor de cabeça... Com uma cervejinha ia ser mais fácil lembrar... M-E-U D-E-U-S!...’

João avista o garçom passando com uma torre de chopp Brahma de 5 litros, estupidamente gelada. Seu queixo da fica ligeiramente caído, seus olhos saem de foco, ele perdeu a fala e seguiu com a cabeça o garçom e sua torre até uma mesa qualquer.

– É claro o que?... – Maria olha pra cara de idiota de João e não tem dúvidas: ele avistou a ruiva. ‘Cafajeste, nem teve o tino de disfarçar! Como ele pode fazer isso comigo? É lógico, ele tem um caso com essazinha aí! Tudo faz sentido, ela é a amante dele, por isso ele ta agindo como um idiota. Ele vai ver!’ –... pára de olhar pr’essa ruiva.

– Que ruiva, to olhando pro garçom.

– Ah, ta. Até parece, eu sei de tudo!

– De tudo o que?

– Do seu caso com essazinha aí. Eu vi sua expressão quando ela entrou. Como você pode chamar ela pro mesmo ambiente que eu...

– Que, que, como?

– Não seja bobo, eu sei de tudo, agora tudo está mais claro! A sua constante falta de dinheiro, as horas extras no trabalho, horas extras no trabalho o caralho! As horas extras que você está fazendo é no MOTEL com essazinha aí. E pagando TU-DO! Por isso ta sem dinheiro Paga a tinta pra esse cabelo pois ruiva, meu bem, tem sobrancelha clara, não essas taturanas pretas que ela têm. Sem contar o péssimo hábito de se vestir feito uma piranha e de andar sem calcinha por aí... E ainda traz nós duas ao mesmo restaurante só pra confrontar! Muito inteligente você, João...

– Que?...

João finalmente lembra ‘de ontem’. Coloca a mão no bolso do paletó e pega um pequeno embrulho e estende para Maria que o abre e vê a aliança. Ao levantar os olhos vê o sorriso de João ao pedi-la em casamento, aceita, e vivem felizes para sempre.

E a moral da história é... ta, não sei. Fui muito mal na prova sobre moral na faculdade. Alias, sei lá, nem todo texto tem que ter moral!

0 comentários: